Neurociência e aprendizagem na Primeira Infância: como educar na fase de maior evolução do cérebro

Gestão Escolar

Como se sabe, são vários os fatores a serem considerados durante o processo de aprendizagem. Desde os mais amplos, capazes de nos separar por grupos como o de faixa etária até os individuais ditados pelas experiências de vida de cada um.

Em geral, todos eles possuem como base de estudos a neurociência, que é o estudo do sistema nervoso e suas funcionalidades. Através dela, é possível entender o processo de desenvolvimento do ser humano através do cérebro.

E justamente devido à complexidade do cérebro humano, é que esse estudo ainda divide-se em subcategorias como a neurociência cognitiva focada no conhecimento e raciocínio lógico ou mesmo a neurociência comportamental, que analisa o comportamento do indivíduo conforme fatores internos a níveis de emoção e pensamento. Há ainda outras subcategorias com outros focos.

Porém, um fator muito determinante para o estudo do cérebro é a idade, considerando que sua estrutura e processamento de informações também se modifica com o passar do tempo. São mudanças que ocorrem de maneira mais acentuada principalmente nas primeiras fases da vida.

Para os educadores, o entendimento dessas fases é fundamental para o melhor direcionamento da aprendizagem. De maneira geral, as fases de desenvolvimento se organizam nos grupos: primeira infância (0 a 6 anos), segunda infância (7 a 11 anos), adolescência (12 a 21 anos), vida adulta (22 a 59 anos) e terceira idade (60 anos em diante).

Vamos falar sobre a primeira Infância, como abertura de uma sequência de artigos que irão englobar todas elas pela ótica da neurociência.

O objetivo é ajudar a enxergar melhor os limites e oportunidades relacionados a cada fase. Além disso, também analisar as possíveis consequências passadas e futuras de acordo com os estímulos recebidos em cada momento, sejam eles positivos ou negativos.

 

Primeira Infância: uma grande oportunidade

A dica mais valiosa aos educadores sobre a neurociência na primeira infância está relacionada à plasticidade do cérebro. O que significa que os primeiros anos de vida representam a fase de maior abertura e absorção para se aprender coisas novas.

E apesar de os fatores genéticos entrarem na equação enquanto tendências intrínsecas, as experiências (fatores extrínsecos) também ditam os rumos de melhor ou pior aproveitamento na aprendizagem. Sendo assim, tanto os estímulos quanto sua falta irão impactar inclusive na estrutura do cérebro a longo prazo.

O que vale tanto para o lado positivo quanto para o lado negativo, já que esse é um cérebro ainda vulnerável. Especialmente no que se diz respeito às condições emocionais. Alguns eventos que ocorrem durante os primeiros anos, podem até ser esquecidos com o passar do tempo, mas impactam profundamente na maneira de viver e assimilar a realidade no futuro.

Há estudos comprovando que o amor materno por exemplo, pode ter amplos benefícios. Mães mais afetuosas e que oferecem apoio emocional, ajudam no desenvolvimento do hipocampo, importante área cerebral, que cresce duas vezes mais rápido em crianças que em resumo, recebem mais carinho e amor do que aquelas que são tratadas com distanciamento.

Mas ainda considerando a essência do papel familiar, não podemos negar que devido aos compromissos do mundo moderno, os pais não estão com seus filhos pequenos em tempo integral.

Assim, a Educação Infantil tem sua parcela de influência relevante diante do convívio na escola. Ou seja, o que antes era apenas de responsabilidade da família, hoje também é um dos pilares da educação que considera o ser integral em todos os seus aspectos de desenvolvimento.

 

Formação Acelerada

Para entender melhor o nível de aproveitamento na Primeira Infância, o gráfico abaixo mostra que a formação de sinapses tem seu ápice nesta fase, de forma rápida e intensa.

Sinapses são regiões de proximidade entre neurônios e células vizinhas, por onde são transmitidos impulsos nervosos.  Quando esses impulsos passam para células vizinhas, é possível que o cérebro responda aos sinais recebidos.

De acordo com a pesquisa “O impacto do Desenvolvimento na primeira Infância sobre a Aprendizagem”, realizada pelo Núcleo Ciência pela Infância: “Dessa maneira, a construção dos circuitos cerebrais é altamente influenciada pelas experiências no início da vida, diretamente mediadas pela qualidade das relações socioafetivas, principalmente pelas interações da criança com seus cuidadores. A aquisição de competências mais complexas no futuro depende de circuitos mais fundamentais que surgem nos primeiros meses e anos de vida. Isso é válido para as diferentes dimensões ligadas às funções cerebrais, sejam elas perceptuais, cognitivas ou emocionais”.

 

Como as crianças aprendem?

De fato, é incrível perceber como logo a partir do momento em que nascemos, somos capazes de assimilar tanta informação de maneira tão rápida e com tão pouco como base.

É o que explica a cientista cognitiva Laura Shulz, em seu TED “A incrível Mente Lógica dos Bebês”, que você pode assistir completo aqui.

Através de alguns experimentos, ela mostra como os bebês são capazes de aprender por meio de generalizações de pequenas amostras. Ou seja, ao presenciar determinadas situações, eles criam suas próprias interpretações de acordo suposições lógicas.

Conforme explica Laura: “Os bebês podem usar alguns dados estatísticos e decidir entre duas estratégias muito diferentes para agir no mundo: pedir ajuda e explorar.”

Mas além disso, ela indica que é preciso pensar a mente humana como algo mais amplo do que o cérebro e com um extremo potencial que não deve se deixar por conta do acaso: “As mentes humanas não aprendem apenas com pequenas quantidades de dados. As mentes humanas pensam novas ideias. Se investirmos nesses aprendizes mais poderosos e no desenvolvimento de bebês e crianças, mães e pais, cuidadores e professores da mesma maneira que investimos em outras formas poderosas e elegantes de tecnologia, engenharia e design nós não vamos apenas sonhar por um futuro melhor, vamos planejar um futuro.”

 

Foco na Experiência

Como vimos, essa fase está cercada de desafios e oportunidades, porém é importante entender que os pais e educadores, apesar de terem maior responsabilidade sobre uma criança pequena, não devem impedir sua capacidade de autonomia e nem mesmo de errar para aprender.

Mesmo tão pequenos, eles já são capazes de tomar certas decisões e evoluem rapidamente. Uma das maneiras de trazer essa autonomia com segurança, é por meio da experiência lúdica. Seja por meio de histórias, jogos ou brincadeiras. Mas, especialmente algo com que eles tenham poder te interação e que possua real significado em suas vidas.

Nessa fase de intensa receptividade e imaginação aflorada, o lúdico é um poderoso recurso e pode ser apoiado em técnicas como o storytelling e até métodos metacognitivos que os estimulem a pensar de forma ampla.

Afinal a liberdade de brincar e experimentar o mundo ao seu redor é o que os permite trabalhar sua imaginação e testar entendimentos muito antes de lidar com os obstáculos e objetivos maiores da adolescência e vida adulta. O que sabemos é que com certeza o aprendizado se estenderá e fará parte das bases em suas próximas etapas.

 

 

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