Qual é a teoria de Tardif e como ela explica a prática docente?
A teoria de Tardif sobre formação de professores é uma das mais importantes da atualidade. No centro dela, está a noção de saberes docentes, que são os conhecimentos básicos que organizam as práticas em sala de aula.
De acordo com o autor, ensinar nunca é apenas transmitir conhecimento. Há uma grande complexidade na prática docente, que articula a todo momento uma série de conhecimentos externos, repassados ao professor, e internos, que ele adapta e transmite com base nas suas experiências individuais.
Se desenvolver como professor envolve, em grande parte, entender como os saberes se organizam e são aplicados em sala de aula. Neste artigo, você verá uma introdução sobre o pensamento do pesquisador.
Quem foi Maurice Tardif?
Maurice Tardif foi um sociólogo e professor canadense que tornou-se internacionalmente conhecido por conta de seus estudos sobre formação profissional e trabalho docente. Ele foi o responsável por desenvolver e popularizar o termo saberes docentes para definir as competências que organizam a atuação dos professores.
A teoria de Tardif defende que esses saberes são plurais, contextuais e produzidos durante a própria prática docente. Ou seja, o professor é protagonista de sua própria evolução, à medida que constrói o conhecimento junto de seus alunos.
A partir da década de 1990, seu trabalho influenciou pesquisas em educação em diversas partes do mundo. No Brasil, Tardif é um dos pesquisadores mais citados em trabalhos acadêmicos na área.
Maurice Tardif era professor titular da Faculdade de Ciências da Educação na Universidade de Montreal. Faleceu em 2023, mas deixou um importante legado.
O que é a teoria de Tardif?
A teoria de Tardif se ocupou de responder perguntas muito difíceis: como os professores constroem conhecimento? Quais são as origens desses saberes? Como eles se relacionam com o trabalho diário?
Não há uma resposta única a essas perguntas. A formação dos professores não é puramente teórica, feita de conhecimentos previamente construídos. Ocorre justamente o oposto: uma construção durante toda a carreira, marcada pelos momentos dentro e fora de sala de aula.
Tardif não criou uma teoria unificada para explicar o processo. Por décadas, ele explorou, aprimorou sua percepção sobre a complexidade da docência em diversos artigos e livros. Nestas publicações, consolidou o conceito de saberes docentes.
Nesta perspectiva, “saber ensinar” envolve a articulação de uma série de conhecimentos, como o domínio sobre a matéria e a gestão da classe. Esse conhecimento é atravessado por uma série de instituições, como a comunidade científica, o currículo da escola, as particularidades das turmas e a trajetória individual do professor.
Os quatro saberes docentes segundo Tardif
A teoria de Tardif organiza quatro saberes docentes. Nenhum deles explica isoladamente a prática docente, mas juntos, dão sentido à função de lecionar.
São eles:
- Saberes da formação profissional: conhecer os processos e técnicas próprias do ensino, como didática, aprendizagem ativa e gestão de sala;
- Saberes disciplinares: é conhecer a matéria que será ministrada. Inclui o domínio dos conteúdos, da lógica da área do conhecimento, o melhor jeito de explicar a matéria e tirar dúvidas, etc.;
- Saberes curriculares: entender como organizar o conhecimento na forma de programas, currículos, objetivos de aprendizagem ou métodos próprios;
- Saberes experienciais: é o que se aprende a partir da prática da docência, como lidar com indisciplina, ajustar uma explicação ou orientar a turma durante projetos em grupo.
A rotina em sala de aula exige a aplicação coordenada desses saberes.
E, quanto mais praticam, mais os professores aprendem. Quando ficam diante de situações novas, ou participam de algum programa de formação, eles ressignificam o conhecimento, alteram suas práticas e assim tornam-se profissionais mais completos.
Como a teoria de Tardif ajuda a entender a prática docente?
Uma das principais contribuições da teoria de Tardif é explicar a tomada de decisões em sala.
A complexidade da prática docente se explica, em parte, pelas decisões que os professores precisam tomar. Planejar aulas, adaptar o cronograma à realidade da turma, definir objetivos, explicar matérias, tirar dúvidas…
Quando pensamos nisso tudo, definir o ensino como “transmitir conhecimento” torna-se muito limitado.
De acordo com o autor:
- Além de ensinar, os professores também produzem conhecimento de forma ativa;
- A prática docente articula saberes distintos, o que explica porque professores com a mesma formação podem agir de formas diferentes diante da mesma situação;
- Ensinar é, muitas vezes, responder aos imprevistos;
- As decisões do professor nem sempre dependem apenas dele – cultura escolar, condições institucionais, tempo e particularidades da turma também influenciam a prática;
- O processo se transforma ao longo do tempo, conforme os professores constroem e articulam seus próprios saberes.
A teoria de Tardif e o desenvolvimento profissional do professor
Segundo Tardif, “teoria” e “prática” nunca estão separadas na formação docente. O desenvolvimento profissional é progressivo e ocorre em um movimento de ir-e-vir entre formação teórica e vivência nas escolas.
Fazer faculdade, interagir com os alunos, negociar prazos com a gestão, conversar com os pais… Tudo isso ensina algo ao professor. A diferença é o que se aprende em cada situação.
Esta é, provavelmente, a principal riqueza da teoria de Tardif: reconhecer a docência em toda a sua complexidade, como uma rede de conhecimentos viva, sempre em movimento.
Aplicações na formação docente
A teoria de Tardif pode orientar diversas atividades de formação profissional:
- Mentorias: professores experientes podem criar espaços de socialização no qual transmitem as suas vivências, facilitando a jornada para quem ainda não viveu as mesmas situações;
- Cursos de formação continuada: além de capacitar professores para métodos específicos, a formação docente deve analisar situações reais de trabalho;
- Grupos de estudo: segundo Tardif, os saberes são construídos individualmente, mas ganham sentido e reconhecimento por meio da socialização;
- Planos de carreira: escolas devem oferecer espaço para o desenvolvimento dos 4 saberes docentes, criando progressões vinculadas às necessidades reais de cada um.
Estas atividades não dependem apenas dos professores. Cabe aos gestores escolares oferecer condições para que a formação docente ocorra com qualidade, levando em consideração os seus saberes estruturantes.
Quando isto acontece, todos colhem os benefícios: escolas constroem diferenciais competitivos, professores sentem-se valorizados e respeitados, alunos recebem uma educação integral de qualidade.
Mas, para isso, é necessário articular os diferentes saberes e suas atividades-chave. Para quem deseja se aprofundar no assunto, recomendamos a leitura do guia de desenvolvimento docente do blog Educador360!

