O Dia do Estudante é comemorado em 11 de agosto. A data marca o decreto de 1827, quando D. Pedro I criou os primeiros cursos jurídicos do Brasil. Para o gestor escolar, porém, a efeméride carrega um segundo significado. Os dados do Censo Escolar 2025 mudaram por completo o diagnóstico sobre retenção de matrícula. A gestão escolar, portanto, precisa entender essa virada antes de repetir o planejamento do ano passado.
Por que o Dia do Estudante interessa à gestão escolar?
A data nasceu ligada ao ensino jurídico, mas ganhou sentido amplo em 1927. Naquele ano, ela passou a homenagear todo estudante brasileiro. Dez anos depois, em 1937, a fundação da União Nacional dos Estudantes deu à palavra “estudante” um peso político. O aluno, assim, deixava de ser só destinatário de aula para se tornar sujeito com voz própria.
Essa mudança histórica ainda orienta a pedagogia atual. Especialistas diferenciam “aluno”, que cumpre currículo por obrigação, de “estudante”, que aprende por curiosidade. Uma escola que trata o discente como recipiente a ser preenchido de conteúdo, portanto, tende a produzir desengajamento. Como os dados de 2025 mostram, esse desengajamento hoje se disfarça melhor do que antes.
O que o Censo Escolar 2025 revela sobre a queda de matrículas?
O Brasil fechou 2025 com 46,01 milhões de matrículas na Educação Básica, uma retração de 2,29% em relação a 2024. A leitura de dois anos atrás, que apontava crescimento da rede privada puxado pela recuperação do poder de compra das famílias, não se sustentou, no entanto. Entre 2024 e 2025, a rede pública perdeu 2,1% das matrículas, e a rede privada encolheu ainda mais, com queda de 2,9%.
O motivo não é mais migração entre redes. É demografia. O Brasil tem menos crianças em idade escolar a cada ano, e a queda mais acentuada aparece justamente na pré-escola e na creche. Por isso, o planejamento de captação de matrícula não pode mais contar com o crescimento natural do mercado. A disputa, daqui para frente, é por retenção de longo prazo da mesma família, não por conquista de novos alunos vindos de outra rede.
A evasão no Ensino Médio caiu, mas isso resolve o problema?
A taxa de abandono no Ensino Médio, que rondava 6% ao ano, despencou para 2,2% em 2025, e para 2,5% considerando só a rede pública. Nos anos finais do Ensino Fundamental, o índice caiu de 3% para 0,9%. A queda é atribuída, em boa parte, ao programa federal Pé-de-Meia. Ele paga incentivo financeiro mensal a estudantes de baixa renda do Ensino Médio público, condicionado à frequência mínima de 80%.
O resultado, portanto, é positivo para a permanência física do aluno na escola. Ele traz, no entanto, um risco novo. O relatório de atualização do Censo chama esse risco de “evasão cognitiva”: o aluno permanece matriculado por causa do incentivo, mas nem sempre permanece engajado. A PNAD Contínua 2025 mostra que 25,6% dos jovens entre 14 e 29 anos declaram simplesmente não ter interesse em estudar. Reter fisicamente o aluno, assim, garante financiamento e meta numérica para a escola. Não garante, contudo, que ele esteja aprendendo.
Como o letramento crítico ajuda a engajar quem já está na sala de aula?
É aqui que o papel da gestão escolar muda de foco. Antes, o desafio era evitar que o aluno fosse embora. Agora, com a frequência sustentada por incentivo externo, o desafio passa a ser sustentar o interesse de quem já está sentado na cadeira.
Um caminho aplicável em sala é o Método do Detetive. A prática consiste em ensinar o aluno a checar fonte, autoria e URL antes de aceitar qualquer informação como verdadeira. Isso desenvolve autonomia intelectual, e não apenas presença registrada em chamada. Vale lembrar que essa estratégia depende de conectividade. O acesso à internet nas escolas subiu de 82,8% para 94,5% entre 2021 e 2025. Estados como Acre (52,5%) e Amazonas (66,6%), no entanto, ainda ficam bem abaixo da média nacional. Nessas regiões, portanto, o engajamento precisa passar por outras portas além da checagem digital de fontes.
Como o mapeamento socioemocional entra no planejamento escolar?
Se o risco migrou de evasão física para apatia dentro da sala de aula, o mapeamento de competências socioemocionais ganha ainda mais peso. Uma escola que acompanha regulação emocional, resiliência e senso de pertencimento, assim, identifica sinais de desmotivação antes que eles virem indisciplina ou reprovação silenciosa.
Essa frente, no entanto, não é só da escola. A família, contudo, segue sendo o primeiro ambiente de formação socioemocional da criança. Por isso, instituições que orientam os pais sobre como desenvolver habilidades socioemocionais em família tendem a colher resultados mais consistentes dentro da sala de aula. Vale revisar como sua escola comunica isso aos responsáveis, e não só como avalia o aluno.
O que a gestão escolar aprende com o colapso da EJA?
O Dia do Estudante também lembra que “estudante” é uma condição que não termina aos 18 anos. As matrículas da EJA no Brasil caíram para 2,3 milhões em 2025, uma queda de 24% desde 2021. Em São Paulo, a rede estadual também perdeu 61,9% das matrículas de EJA entre 2020 e 2023. Parte dessa retração acontece porque escolas convertidas ao modelo de tempo integral chegam a perder 84,5% das matrículas noturnas de EJA. O investimento público, assim, se concentra nas novas coortes de tempo integral.
Essa lacuna educacional atinge, por isso, as famílias das escolas que você gerencia, direta ou indiretamente. Pais e responsáveis que buscam qualificação contínua fora do horário comercial encontram hoje modelos de assinatura para aprendizado contínuo e geração de renda. É um formato que a EJA tradicional, portanto, não conseguiu replicar. Vale, portanto, considerar essa referência ao pensar em parcerias e conteúdos de orientação vocacional para famílias.
O que fica para o planejamento do próximo Dia do Estudante?
O 11 de agosto de 2026 é uma boa data para colocar três perguntas na pauta da gestão. Sua escola sabe distinguir presença física de engajamento real? O currículo inclui letramento digital e verificação de fontes de forma sistemática, mesmo onde a conectividade ainda falha? Os professores têm ferramentas para mapear desenvolvimento socioemocional além da nota e da frequência?
A resposta a essas perguntas, portanto, define o rumo da instituição. Ela pode comemorar uma matrícula cativa e assumir que o trabalho terminou. Ou pode, em vez disso, formar estudantes que carregam, para além da escola, a curiosidade que o mercado de trabalho e o ensino superior já cobram. O Dia do Estudante, nesse sentido, funciona menos como celebração de calendário e mais como um ponto de checagem anual para quem decide o futuro da matrícula.




